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Guardiões da Galáxia: Vol. 3

Foto: cortesia Marvel Studios. © 2023 MARVEL

Por Rodrigo de Oliveira

 Seria um crime se James Gunn não pudesse encerrar a trilogia que tão bem iniciou em 2014 e que deu sequência com inegável qualidade em 2017. Mas no ano seguinte ao sucesso de Guardiões da Galáxia: Vol. 2, antigos tweets do cineasta foram levados a público, com senso de humor ofensivo, o que fez com que a Disney demitisse Gunn da produção. Eles ainda usariam o roteiro assinado por ele, mas com outro diretor. O elenco se juntou em apoio ao cineasta, que respondeu muito bem ao momento, humildemente aceitando os acontecimentos e fazendo seu mea culpa. Contratado pela DC para filmar uma nova versão de O Esquadrão Suicida, Gunn acabou recontratado pela Marvel. Isso atrasou Guardiões da Galáxia: Vol. 3 em três anos – contando a demissão e a pandemia que apareceu no caminho. Ao lado de Dr. Estranho, os Guardiões são os heróis que mais demoraram para ganhar sequência em suas aventuras – cinco anos – embora eles tenham aparecido nos eventos de Vingadores: Guerra Infinita (2018), Ultimato (2019), Thor: Amor e Trovão (2022) e em um especial de Natal para o Disney+ (2022). Mas estava mais do que na hora de revermos Starlord, Gamora, Rocket, Groot, Drax, Nebulosa e Mantis protagonistas na tela grande. E que bom que foi sob a batuta de Gunn – agora o cabeça da DC Studios, o estúdio concorrente.

Foto: cortesia Marvel Studios. © 2023 MARVEL.

Guardiões da Galáxia: Vol. 3 é o fechamento das aventuras deste time. O logo da Marvel no início não deixa dúvidas do clima de despedida, com os heróis da Casa das Ideias dando lugar a apenas cenas dos Guardiões – algo raro de acontecer. Outro ponto interessante de notar é a emoção que James Gunn intencionalmente deseja injetar logo de início na sua história com sua trilha sonora. Se no primeiro Guardiões da Galáxia, a animada dança de Starlord (Chris Pratt) ao som de Come and Get your Love, da banda Redbone, e no Vol. 2, a contagiante coreografia de Baby Groot no balanço de Mr. Blue Sky, da Electric Light Orchestra, nos davam uma ideia de diversão imediata, a versão acústica de Creep, do Radiohead, que abre o Vol. 3 nos mostra que o clima é mais soturno. O longa abre com Rocket (voz de Bradley Cooper) e não é à toa. A trama é focada no personagem, em seu passado e em como o guaxinim falante que tanto conhecemos e amamos se tornou quem é, e em seu presente, uma corrida contra o tempo para que Starlord e seus companheiros guardiões consigam uma maneira de manter o amigo vivo.

E o que ou quem deixou Rocket por um fio? A chegada de Adam Warlock (Will Poulter) em Knowhere, o QG dos Guardiões da Galáxia, é explosiva, com ele tentando capturar Rocket por algum propósito desconhecido. Quando Starlord e Nebulosa (Karen Gillan) tentam reanimar o amigo, ferido mortalmente, descobrem que existe algum dispositivo no corpo de Rocket que impede seu salvamento. Desta forma, Peter Quill, Nebulosa, Drax (Dave Bautista), Mantis (Pom Klementieff) e Groot (voz de Vin Diesel) precisam buscar uma espécie de senha que desbloqueie o organismo do seu companheiro. A única pessoa que poderia ajudar é a agora saqueadora Gamora (Zoe Saldaña), a versão do passado da heroína que conhecemos nos filmes anteriores. A ausência da mulher que ama deixou Quill em frangalhos e a aparição desta versão tende a tirar Starlord dos prumos. Enquanto vemos essa caça dos Guardiões ao covil do maquiavélico Herbert Wyndham (Chukwudi Iwuji), conhecido como Alto Evolucionário por seus experimentos científicos, observamos em flashback como Rocket se tornou quem é, e os amigos que se viu obrigado a deixar no caminho.

Foto: Cortesia Marvel Studios. © 2023 MARVEL.

Se em Volume 2, James Gunn já havia investido na emoção com a resolução do arco entre Yondu (Michael Hooker) e Peter Quill, aqui o cineasta parece estar decidido a fazer o espectador chorar em diversos pontos da história. Desde maneiras bem óbvias, como mostrar a infância de Rocket e seus olhos graúdos, temerosos pelo porvir; os trechos em que o personagem adulto está à beira da morte e como essa condição afeta os Guardiões de maneiras diferentes; e até de maneiras mais sutis, como o jeito em que Drax observa seu amigo Starlord ser carregado, bêbado, por Nebulosa, falando um preocupado “de novo?”. No longa anterior, Gunn concebeu algo emotivo, mas carregou a mão em diálogos expositivos. Aqui, ele não precisa fazer isso – já vemos os Guardiões como uma família, não tendo a necessidade de martelar isso com falas redundantes.

A estrutura do longa-metragem é simples o suficiente para dar espaço para todos os atores brilharem em algum trecho. Desde os menos proeminentes, como Kraglin (Sean Gunn) e a cachorrinha Cosmo (voz de Maria Bakalova), passando pelos retornos de Ayesha (Elizabeth Debicki) e Stakar (Sylvester Stallone), até o óbvio protagonismo dos seis Guardiões. É fascinante como um personagem como Groot consegue ter tantas cartas na manga para entreter – em uma das cenas que aparecem no trailer, ele surge com várias armas em seus galhos, atacando os inimigos ao lado de Starlord, em uma das sequências mais impactantes da aventura. Volume 3, no entanto, fica devendo um pouco no humor, principalmente por conta da ausência de Rocket em boa parte da história. Sim, ele aparece em quase todo o filme – deve ser, inclusive, o personagem que mais ganha tempo de tela. Mas nos flashbacks, ele não está totalmente formado. No presente, está em uma cama. Todos os demais personagens têm trechos cômicos, com Drax mantendo-se um dos mais cativantes. Mas o senso de humor do Guaxinim faz muita falta.

Foto: cortesia Marvel Studios. © 2023 MARVEL.

Por ser uma aventura Marvel, claro que existem muitas cenas de ação e James Gunn parece continuar se divertir ao buscar outras formas de mostrar os mesmos sopapos e tiros. Bom lembrar que em Volume 2, o filme abre com a ação contra um monstro acontecendo no background, enquanto Baby Groot dança. Aqui, temos um bom plano sequência em que vemos os Guardiões invadindo uma nave do inimigo e eliminando seus capangas – com cada um tendo seu tempo para mostrar seus movimentos especiais. Como a coisa ali é bem digital, é um plano sequência construído na montagem. Mesmo assim, é divertido e impressiona.

Do elenco, temos algumas despedidas anunciadas, como Zoe Saldaña e Dave Bautista, que haviam falado que esta seria a última participação de ambos em produções da Marvel. Sabendo disso, Gunn deu aos personagens importantes momentos. Gamora nunca foi tão mortífera, algo que a atriz desejava desde o começo, por conta de sua contraparte dos quadrinhos. E Drax se mostra novamente o coração do grupo, resolvendo uma questão com prisioneiros de maneira terna e comovente. Seu desfecho é bastante satisfatório por fechar uma ponta solta desde o início de seu arco: o buraco em sua alma pela ausência de sua mulher e filha.

Foto: Jessica Miglio. © 2023 MARVEL.

Quanto às novidades, Will Poulter ganha pouco tempo para desenvolver seu Adam Warlock, mas nos poucos momentos em que aparece, tem sua participação realçada na trama. Ele é responsável pela corrida contra o tempo dos Guardiões para salvar Rocket e, também, de um trecho importante do terceiro ato. Chukwudi Iwuji aparece terrível como o Alto Evolucionário, um homem cruel e com complexo de Deus. O ator – que teve destaque na série Pacificador, da DC – capricha na loucura, exagerando de maneira calculada as explosões de temperamento do sujeito. Temos ainda pequenas participações de Daniela Melchior, Jennifer Holland, Nico Santos e Nathan Fillion, elevando a qualidade geral do elenco. Não se espante em ver o nome de Linda Cardellini nos créditos iniciais. Ela interpreta Laura Barton, a esposa do Gavião Arqueiro, no MCU, mas aqui recebe um novo papel, como a voz de Lilly, a amiga lontra de Rocket na infância. Esse trecho dos animaizinhos engaiolados e modificados é talvez o mais próximo que a Marvel chegará de uma produção com cara de Tim Burton.

Como de praxe, a trilha sonora é ótima e onipresente. Começa com Creep, como dito, e tem uma seleção incrível de sons como Spacehog (In the Meantime), The Flaming Lips (Do you Realize?), Beastie Boys (No Sleep til Brooklyn), The The (This is the Day), Faith no More (We Care a Lot), Heart (Crazy On You), Rainbow (Since you’ve Been Gone), entre vários outros. O desfecho com Florence + The Machine poderia soar deslocado por ser uma faixa mais recente (Dog Days Are Over é de 2009), mas Gunn consegue fazer com que faça sentido. Os créditos finais ainda dão espaço para outras ótimas canções, como o resgate de uma faixa do primeiro longa e um hino de Bruce Springsteen.

Foto: Jessica Miglio. © 2023 MARVEL.

Agora, para entrar em trechos mais específicos, vamos lançar mão de spoilers. Portanto, caso não tenha assistido ao longa, pare o texto aqui. Muito se falou que Guardiões da Galáxia: Vol. 3 seria uma despedida do grupo, portanto o medo dos fãs era acompanhar algo nos moldes de Vingadores: Ultimato com a morte de heróis importantes. Não é isso o que acontece e parece uma decisão acertada. Os caminhos que Gunn desenhou para cada um de seus personagens faz total sentido com o que vimos até então. Mesmo Starlord abandonar seu grupo de amigos e viver uma existência tranquila no planeta Terra parece correto – ainda que a última cena pós-créditos mostre que a decisão pode ser menos empolgante do que imaginado. A concepção de uma nova formação dos Guardiões era esperada e parece um bom recomeço. Gunn conseguiu assegurar ao irmão um papel central nas próprias aventuras e ainda incluiu Adam Warlock no time, dando a Rocket o protagonismo e mantendo Groot ao seu lado. É uma saída inteligente. O texto final dizendo que Starlord voltará é uma maneira de lembrar de que embora vários membros do elenco tenham anunciado sua saída, Chris Pratt segue interessado em viver o herói da Marvel.

Resta saber como continuarão essa história. Gunn fez algo muito próprio e diferente do restante do Universo Cinematográfico do estúdio. Qualquer um que assuma aqui tem um desafio e tanto. Ou se afasta do que o cineasta fez, mas tira muita coisa do que virou a marca dos heróis (como fazer uma nova aventura sem uma trilha sonora pinçada a dedo?), ou tenta emular, podendo soar como uma imitação. É um problema que a Marvel tem nas mãos e que deverá resolver para seguir com uma de suas franquias mais importantes. Afinal de contas, Guardiões da Galáxia foi o primeiro filme que deu à Marvel a certeza de que poderiam fazer o que bem entendessem que o público apareceria para conferir. Diferente de Homem de Ferro, Hulk, Capitão América e Thor, heróis não necessariamente no top of mind do grande público, mas que tinham certo renome, os Guardiões só eram conhecidos por fãs de quadrinhos. É uma propriedade intelectual valiosíssima para a Casa das Ideias e que deve ser tratada como tal no futuro. Seja lá quem for seguir as histórias.

Foto: cortesia Marvel Studios. © 2023 MARVEL.

 

FICHA TÉCNICA
GUARDIÕES DA GALÁXIA: VOL. 3
GUARDIANS OF THE GALAXY: VOL. 3
EUA – 150 min – Aventura, Sci-Fi
Direção e Roteiro: James Gunn
Com Chris Pratt, Zoe Saldaña, Dave Bautista, Karen Gillan, Pom Klementieff, Vin Diesel, Bradley Cooper, Sean Gunn, Chukwudi Iwuji, Will Poulter, Elizabeth Debicki, Maria Bakalova, Sylvester Stallone, Michael Rosenbaum, Stephen Blackehart, Linda Cardellini, Asim Chaudhry, Mikaela Hoover, Judy Greer, Miriam Shor, Nico Santos, Jennifer Holland, Daniela Melchior, Tara Strong, Nathan Fillion
Cotação: 9

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