
Taika Waititi consertou o Thor. Até Ragnarok, o Deus do Trovão não tinha muita personalidade, mudando o registro a cada nova aventura – seja solo ou junto dos Vingadores. A partir do longa lançado em 2017, no entanto, o herói interpretado por Chris Hemsworth ganhou uma nova roupagem, mais cômica e despojada – replicada em Os Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Ultimato (2019). Arrisco dizer que a chegada triunfante de Thor em Wakanda durante a primeira parte do embate contra Thanos só gerou tamanha celeuma nos fãs por conta da nova atitude do asgardiano, repaginado por Waititi. Com isso em mente, Amor e Trovão, a quarta produção estrelada por Thor, chegou carregada de expectativas. De patinho feio para o primeiro herói da Marvel a ganhar quatro produções solo, era de se esperar que algo de qualidade viesse pela frente. E embora divirta aqui e ali, este novo capítulo fica um degrau abaixo de Ragnarok exatamente por não ser tão engraçado quanto se propõe a ser – um pecado para uma comédia.
A trama é ambientada após os acontecimentos de Ultimato e, rapidamente, nos mostra o Deus do Trovão recuperando seu musculoso corpo de outrora. Ao lado dos Guardiões da Galáxia (em uma ponta do elenco completo), Thor resolve problemas gigantescos com sua tradicional força – e falta de jeito. Ele acaba se separando de Starlord (Chris Pratt) e dos demais quando uma ameaça surge na forma de Gorr, o Matador de Deuses (Christian Bale). Para conseguir vencê-lo, Thor precisará reunir uma equipe forte, contando com Korg (Taika Waititi), Valkyrie (Tessa Thompson) e, surpreendentemente, Jane Foster (Natalie Portman), sua ex, que agora atende pelo nome de Poderosa Thor desde que o martelo Mjolnir resolveu protegê-la. Thor não sabe, mas Jane está passando por problemas sérios de saúde e o martelo e os poderes do trovão são maneiras de ela se livrar da dor da doença.

Sem sombra de dúvidas, a melhor parte de Thor: Amor e Trovão é a presença de Natalie Portman. A atriz ficou de fora de Ragnarok e, até então, tinha uma personagem que ficava um tanto à margem. Era de se perguntar, inclusive, o que fez uma vencedora do Oscar aceitar o papel de interesse amoroso do herói em primeiro lugar. Neste novo filme, no entanto, é dado à atriz espaço para cenas mais dramáticas – é de partir o coração vê-la fragilizada por conta de sua doença – e de ação. Portman passou por uma preparação imensa para chegar ao físico necessário e não decepciona. O arco de Jane começa e fecha de maneira pungente, desenhado de forma sensível por Taika Waititi.
Por falar no cineasta, ele é um dos destaques cômicos por conta de Korg, o guerreiro sempre otimista. Chris Hemsworth continua servindo bem ao propósito de seu personagem, mas desta vez se ressente de um texto menos engraçado. As tiradas que eram ótimas em Ragnarok não têm o mesmo efeito neste longa. Por ser uma comédia de ação, os momentos de graça estão espalhados por toda a narrativa. E isso não é um problema por conta do gênero escolhido. O que deixa Amor e Trovão um degrau abaixo do antecessor é que as piadas não acertam tanto o alvo. E não é por falta de tentativa ou de talentos envolvidos. Russell Crowe tenta fazer de seu Zeus um tipo tão excêntrico quanto o Grão-Mestre de Jeff Goldblum – mas não atinge as notas necessárias. Os Guardiões da Galáxia, que são sinônimo de graça, têm pouco o que fazer e estão estranhamente contidos. O retorno de Sam Neill, Matt Damon e Luke Hemsworth consegue injetar alguma graça – e uma presença surpresa é a cereja do bolo. Mas ainda é pouco.

Ao menos, em comparação a Ragnarok, o vilão parece ser melhor aproveitado. Cate Blanchett aparecia pouquíssimo no longa anterior, enquanto Christian Bale até ganha um prólogo de destaque para chamar de seu. O ator é conhecido por sua entrega aos papéis e é uma presença ameaçadora, tomando emprestado algo de Nosferatu para causar medo. Nas cenas mais cômicas, ele pode lembrar o Tio Chico da Família Addams, é verdade.
As cenas de ação e aventura são boas e carregam a marca da Marvel – temos até crianças participando da batalha, o que é uma novidade curiosa. E se você é fã de Guns N’ Roses, vai se divertir com a escolha de músicas de Taika Waititi para este filme. Não serão poucos que vão achar a trilha ótima. O recurso, no entanto, soou preguiçoso, como se o diretor tivesse pego uma coletânea de grandes sucessos da banda e pinçado as faixas mais óbvias. Da trilha, os momentos mais inspirados são os que criativamente são mais estimulantes – como a montagem ao som de ABBA para os momentos entre o casal Thor e Jane. Até a marcha da Marvel do logo ganhou uma versão com guitarras, o que conversa bem com a temática do filme. Não entendam mal. Nada contra Guns N’ Roses ou hard rock. Mas existem tantas bandas do estilo no mundo que Waititi poderia ter incluído outras na trilha, mostrando ter pensado mais do que dois minutos a respeito das canções. James Gunn poderia ter ajudado, talvez.

Como de praxe, temos ganchos para sequências – e tudo indica um embate de titãs no próximo filme. O desfecho é bastante sensível e carrega bem a mensagem que Waititi pretende deixar aos fãs, a respeito da força do amor. Thor: Amor e Trovão é uma produção com o coração no lugar certo, mas com risadas de menos para ser uma grande comédia. Ainda é superior aos dois primeiros Thor, mas fica devendo ao que o próprio Taika já fez na franquia e em outros trabalhos.
Thor: Amor e Trovão
(Thor: Love and Thunder)
EUA – 125 min – Aventura, Comédia
Dir.: Taika Waititi
Rot.: Taika Waititi, Jennifer Kaytin Robinson
Com Chris Hemsworth, Natalie Portman, Christian Bale, Tessa Thompson, Taika Waititi, Russell Crowe, Jaimie Alexander, Chris Pratt, Dave Bautista, Karen Gillan, Pom Klementieff, Sean Gunn, Vin Diesel, Bradley Cooper, Carly Rees, Matt Damon, Luke Hemsworth, Sam Neill
Cotação: 6
